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Edilson Moura Pinto - Plano Brazil/ GSEC
Uma resposta a esta pergunta relevante, haveria a possibilidade de o Brasil atrair investimentos voltados à criação de estruturas privadas de resiliência? Esta é uma questão ques tem ganhado relevância diante do aumento das preocupações globais com mudanças climáticas, instabilidade geopolítica, pandemias e interrupções das cadeias de abastecimento.
Nesse contexto, é importante estabelecer uma distinção entre duas questões, primeiro, a capacidade do Brasil de receber um fluxo crescente de capital interessado em resiliência territorial e a possibilidade de reproduzir diretamente projetos como Wamani, empreendimento desenvolvido na Argentina pelo empresário Martín Varsavsky e seus sócios.
A primeira hipótese parece plausível. A segunda, embora possível em determinadas circunstâncias, ainda não apresenta condições evidentes para uma reprodução direta em território brasileiro.
O modelo Wamani
O caso Wamani chama atenção por ultrapassar o conceito tradicional de bunker ou abrigo subterrâneo.
O empreendimento foi estruturado em uma propriedade de aproximadamente 32 mil hectares na região de Mendoza, na Argentina, reunindo moradias pré-fabricadas, domos, geração de energia solar, pista de pouso e planos para produção agropecuária.
A lógica do projeto está associada à construção de uma infraestrutura com elevado grau de autonomia, capaz de manter determinadas funções essenciais em cenários extremos, como guerras, crises econômicas profundas ou rupturas prolongadas das cadeias globais de abastecimento.
O conceito, portanto, está menos relacionado a um abrigo temporário e mais à criação de um território privado preparado para manter condições básicas de funcionamento durante períodos de instabilidade.
Os atributos do Sul brasileiro
Nesse cenário, regiões do Sul do Brasil, especialmente áreas rurais do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, apresentam características que poderiam despertar o interesse de investidores voltados à chamada resiliência territorial.
A primeira delas é a forte base agrícola e pecuária. O Rio Grande do Sul figura entre os principais produtores agropecuários do país e possui significativa diversidade de culturas e capacidade produtiva.
Para empreendimentos orientados à sobrevivência e à autonomia de longo prazo, a capacidade de produzir alimentos pode ser mais relevante do que a simples existência de estruturas subterrâneas ou sistemas de proteção física.
A disponibilidade de água também representa um fator estratégico. Entretanto, esse elemento exige uma análise mais complexa do que a simples identificação de regiões aparentemente abundantes em recursos hídricos.
Outro fator é a distância relativa dos principais centros geopolíticos e militares globais. Parte da lógica associada à escolha do Cone Sul como região de menor exposição a grandes conflitos internacionais poderia, em determinadas circunstâncias, ser aplicada ao território brasileiro.
A infraestrutura regional representa outro elemento relevante. Ao contrário da ideia tradicional de isolamento absoluto, empreendimentos de longo prazo dependem da proximidade relativa de estradas, aeroportos, hospitais, telecomunicações, capacidade industrial e centros urbanos regionais.
A existência de áreas rurais com menor densidade populacional também poderia favorecer determinados projetos. No entanto, o conceito de baixa densidade deve ser utilizado com cautela. O Rio Grande do Sul possui extensas áreas rurais, mas está longe de ser um território despovoado.
Em Santa Catarina, especialmente na região Oeste, existem igualmente características favoráveis à atividade agropecuária e à produção de alimentos. Entretanto, o território catarinense apresenta maior ocupação e fragmentação fundiária, o que pode dificultar a aquisição de grandes áreas contínuas semelhantes às existentes em partes da Argentina.
O desafio climático
A principal ressalva à ideia do Sul brasileiro como refúgio de longo prazo está relacionada ao clima.
A região não pode ser considerada um ambiente climaticamente estável. O Rio Grande do Sul tem enfrentado eventos extremos de grande magnitude, incluindo enchentes, secas e períodos de irregularidade nas chuvas.
Essas condições afetam diretamente a produção agrícola, a infraestrutura e o abastecimento de água.
A ocorrência de temperaturas elevadas e déficits hídricos em determinadas regiões demonstra que a combinação entre agricultura e disponibilidade de água não representa automaticamente uma garantia de resiliência.
Santa Catarina também enfrenta períodos de estiagem capazes de afetar o abastecimento humano, a pecuária e a produção agrícola.
Dessa forma, projetos voltados à resiliência territorial dependeriam de estudos detalhados de micro-regiões específicas.
Entre os fatores a serem analisados estariam as bacias hidrográficas, o risco de inundação, a disponibilidade de águas subterrâneas, a qualidade dos solos, a altitude, a exposição a ondas de calor e a capacidade de armazenamento e irrigação.
A escolha do local seria, portanto, muito mais importante do que a simples seleção de um estado ou região.
Possíveis modelos brasileiros
Uma eventual adaptação brasileira do conceito não precisaria reproduzir literalmente o modelo Wamani.
O formato mais provável poderia se aproximar de um enclave agro-tecnológico de resiliência. Esse tipo de empreendimento poderia reunir uma grande propriedade rural, geração própria de energia, produção agrícola, sistemas de armazenamento, fontes redundantes de água, conectividade independente, estruturas residenciais de alto padrão e acesso relativamente rápido a uma cidade regional.
O público potencial também poderia ser mais amplo do que indivíduos preocupados exclusivamente com cenários de guerra ou colapso global.
Pandemias, eventos climáticos extremos, interrupções logísticas, instabilidade política e estratégias de preservação patrimonial podem ampliar o interesse por propriedades capazes de manter certo grau de autonomia.
No Brasil, esses empreendimentos também poderiam ser economicamente estruturados sob outras atividades.
Agroturismo, conservação ambiental, produção agropecuária, empreendimentos imobiliários rurais e retiros privados poderiam oferecer fontes permanentes de receita, enquanto sistemas de energia, água e produção de alimentos funcionariam como elementos adicionais de resiliência.
Essa característica poderia tornar o modelo brasileiro economicamente mais diversificado do que um projeto concebido exclusivamente para situações de colapso.
A barreira social e fundiária
O principal desafio, entretanto, pode estar menos relacionado à tecnologia e mais às consequências sociais da concentração territorial.
A aquisição de grandes extensões de terra por investidores estrangeiros ou grupos de grande capacidade financeira pode provocar debates relacionados à concentração fundiária, soberania territorial, acesso à água, especulação imobiliária e relacionamento com comunidades locais. Também entram nesse debate questões relacionadas à legislação sobre aquisição de terras por estrangeiros, tributação, estruturas societárias, segurança privada e governança territorial.
Nesse cenário, o capital interessado em propriedades resilientes poderia chegar antes da existência de uma ampla aceitação social para a formação de grandes enclaves privados de segurança.
O próprio caso argentino demonstra essa contradição. Mesmo projetos orientados à autonomia permanecem inseridos em sociedades locais, economias regionais e relações territoriais complexas.
A construção de comunidades privadas altamente preparadas para enfrentar crises pode gerar, simultaneamente, interesse econômico e desconfiança entre populações vizinhas.
Resiliência privada e resiliência social
A principal questão, portanto, ultrapassa a capacidade de uma propriedade produzir alimentos ou gerar sua própria energia. Existe uma contradição potencial no conceito de refúgio privado.
Quanto maior a concentração de recursos em enclaves isolados, maior pode ser a fragilidade do sistema social localizado ao redor dessas estruturas.
Uma propriedade autossuficiente ainda depende, direta ou indiretamente, de hospitais regionais, trabalhadores, estradas, telecomunicações, mercados, instituições públicas e estabilidade social.
A verdadeira resiliência territorial, nesse sentido, não depende exclusivamente de cercas, hectares, geradores ou estoques de alimentos. Ela depende da capacidade de uma região inteira continuar funcionando.
Uma nova classe de ativo
O Brasil surge, assim, como um candidato plausível a receber investimentos internacionais voltados à chamada resiliência patrimonial.
O principal diferencial brasileiro não seria simplesmente a distância em relação a possíveis cenários de conflito global. Mas sim, a combinação entre território, capacidade de produção de alimentos, disponibilidade de recursos naturais, geração de energia, infraestrutura e escala econômica representa um conjunto de fatores potencialmente atrativos.
O Sul do país reúne parte significativa desses atributos, embora riscos climáticos, questões fundiárias e desafios sociais impeçam que a região seja considerada um refúgio automático ou garantido.
O caso Wamani pode portanto representar, nesse sentido, o surgimento de um novo tipo de investimento. Entretanto, mais do que bunkers destinados a bilionários, esses empreendimentos podem ser entendidos como territórios privados de resiliência, preparados para manter determinadas funções essenciais diante de crises prolongadas.
A questão central, portanto, pode não ser se o Brasil conseguirá reproduzir exatamente o modelo argentino.
O debate mais relevante é outro e está mais ancorado na pergunta: Até que ponto o capital global passará a considerar a resiliência territorial? Pois para isso precisa-se combinar uma série de condições favoráveis que envolvem disponibilidade de água, capacidade de produção de alimentos, energia, instalação de infraestrutura e estabilidade regional, para que então isto tudo surja como uma nova classe de ativo estratégico.
O Sul do Brasil possui diversos elementos capazes de participar dessa tendência. Mas sua atratividade dependerá da capacidade de equilibrar investimento privado, segurança climática, legislação fundiária e desenvolvimento social.
Afinal, um território verdadeiramente resiliente não é apenas aquele capaz de proteger seus proprietários. É aquele capaz de manter funcionando a sociedade que existe ao seu redor.
Sobre o Autor
Edilson Moura Pinto é físico, Diretor de Projetos do Instituto GSEC, pesquisador e professor, licenciado pela UNESP, mestre em Física pela UNICAMP e doutor em Engenharia de Materiais pela Universidade de Coimbra, Portugal.
Atua nas áreas de materiais nanoestruturados, eletroquímica, sensores e tecnologias avançadas, com experiência em pesquisa internacional na América do Sul, Europa e África.
Atua no ensino superior, gestão acadêmica e direção de projetos. É criador e editor-chefe do Plano Brazil, dedicado à análise de defesa, tecnologias militares e geopolítica, e integra o GSEC, contribuindo com uma visão científica e estratégica sobre soberania, segurança e desenvolvimento tecnológico do Brasil.
FONTES
1. Wamani / projeto de refúgio para milionários em Mendoza — Diario UNO — [LINK] https://www.diariouno.com.ar/sociedad/aqui-hay-agua-pura-que-tiene-san-carlos-como-refugio-millonarios-una-tercera-guerra-mundial-n1584206/amp
2. Rio Grande do Sul — Cidades e Estados — IBGE — [LINK] https://www.ibge.gov.br/cidades-e-estados/rs/
3. Censo Demográfico 2022 — População e Domicílios — Rio Grande do Sul — IBGE — [LINK] https://www.ibge.gov.br/biblioteca/visualizacao/periodicos/3102/cd\_2022\_populacao\_idade\_sexo\_rs.pdf
4. Estudo sobre as enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul — Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) — [LINK] https://www.gov.br/ana/pt-br/assuntos/noticias-e-eventos/noticias/estudo-aponta-que-enchentes-de-2024-foram-maior-desastre-natural-da-historia-do-rs-e-sugere-caminhos-para-futuro-com-eventos-extremos-mais-frequentes
5. Publicações da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico — ANA — [LINK] https://www.gov.br/ana/pt-br/centrais-de-conteudos/publicacoes
6. Impactos socioeconômicos dos eventos climáticos extremos de 2024 no Rio Grande do Sul — Governo do Estado do Rio Grande do Sul — [LINK] https://estado.rs.gov.br/upload/arquivos/202504/relatorio-dee-impactos-socioeconomicos-dos-eventos-climaticos-extremos-de-2024-no-rio-grande-do-sul-uma-analise-apos-um-ano-do-desastre.pdf
7. Impactos das enchentes na produção de grãos do Rio Grande do Sul — IBGE / Singed Lab — [LINK] https://www.ibge.gov.br/singedlab/dados-apoio-rs\_impacto-enchentes.php
8. Painel do Agronegócio 2024 — impacto das chuvas severas no Rio Grande do Sul — Governo do Estado do Rio Grande do Sul — [LINK] https://expointer.rs.gov.br/painel-do-agronegocio-2024-analisa-impacto-das-chuvas-severas-no-rio-grande-do-sul
9. Área diretamente atingida pelos desastres naturais ocorridos no Rio Grande do Sul em maio de 2024 — Boletim Geográfico do Rio Grande do Sul — [LINK] https://revistas.planejamento.rs.gov.br/index.php/boletim-geografico-rs/article/view/4637
10. Análise do evento extremo de precipitação em novembro de 2024 e seus impactos em Jaguarão-RS — Boletim Geográfico do Rio Grande do Sul — [LINK] https://revistas.planejamento.rs.gov.br/index.php/boletim-geografico-rs/article/view/4601
11. Pesquisa Especial sobre as Enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul (PEERS) — IBGE — [LINK] https://www.ibge.gov.br/peers/
12. Pesquisa Especial sobre as Enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul — publicação e resultados — IBGE — [LINK] https://www.ibge.gov.br/estatisticas/multidominio/meio-ambiente/47278-pesquisa-especial-sobre-as-enchentes-de-2024-no-rio-grande-do-sul.html?lang=pt-BR
13. El Niño 2026–27 — possíveis impactos no Rio Grande do Sul — Cemaden / Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação — [LINK] https://www.gov.br/cemaden/pt-br/cemaden-lidera-elaboracao-de-nota-tecnica-sobre-possiveis-impactos-do-el-nino-2026-27-no-rs
14. Boletim Hidrometeorológico de Santa Catarina — Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Economia Verde de Santa Catarina — [LINK] https://www.semae.sc.gov.br/secretaria-do-meio-ambiente-e-economia-verde-de-sc-divulga-o-1o-boletim-hidrometeorologico-de-2025/
15. Efeitos socioeconômicos da estiagem sobre a produção agropecuária de Santa Catarina — Epagri/Cepa — [LINK] https://cepa.epagri.sc.gov.br/index.php/efeitos-socioeconomicos-da-estiagem-e-da-pandemia-do-novo-coronavirus-sobre-a-producao-agropecuaria-de-santa-catarina/